
Decisão: Uma parábola
Mais uma vez cá estou eu sentado na beira do penhasco. Com olhos tristes olho para a escuridão do abismo e depois para a imensidão do céu. Sinto o calor da luz do sol em minha pele e ao mesmo tempo um frio no estomago, como se as trevas que me esperam mais embaixo tivessem adentrado e se alojado no amago do meu espirito.
Relembro-me dos momentos que considerei cruciais em minha vida, e somente agora, quando o destino da minha essência está para ser decidido, vejo que alguns desses momentos não passaram de meras ilusões criadas por uma mente cansada e machucada que nobremente tentou dar, mesmo que em mínima parte, algumas alegrias a este que tenta decidir qual caminho tomar pela última vez.
Lembro-me dos meus queridos amigos. O quanto participei – de forma esperada e inesperada – dos momentos deles. Lembro-me das inúmeras vezes que tive a grande felicidade de atuar como um simples coadjuvante na grande peça teatral encenada por cada um deles. Nesse momento, ao olhar para o céu, percebo que lágrimas percorrem meu rosto cansado, e tento me recordar à última vez que tais lágrimas – lágrimas de alegria - fizeram esse percurso em meu rosto.
Enxugo as lágrimas e fico de pé na beira do penhasco. Respiro fundo, fecho meus olhos e a decisão está feita. Não devo tentar alcançar os céus, pois realmente sei que mesmo que eu possuísse asas, elas seriam feitas de sombras e se desintegrariam sob a luz do sol, o que só faria com que a dor da queda fosse mais intensa.
Mais uma vez encho meus pulmões com o ar da coragem e salto para a escuridão profunda, mas algo inesperado acontece, uma mão segura a minha mão e alguém - cujo rosto não posso ver pois a intensa luz do sol me impede e cuja voz parece me lembrar alguém que inutilmente tento lembrar – começa a me trazer de volta.
Mas infelizmente ou felizmente, a decisão já havia sido tomada. Liberto minha mão das do meu salvador tardio e, com um sorriso fúnebre, lhe digo:
- obrigado por tudo, mas quando uma decisão é tomada ela deve ser executada.
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