
- O PENSAR -
Acordo do sonho surreal molhado pelo suor noturno causado pelo clima morno de uma noite não tão aconchegante. De súbito me pego pensando no sonho recém sonhado. Sinto um leve aperto no coração; demoro um pouco para entender, mas acabo me surpreendendo com a significância final... É a saudade. Saudade da praia, do brilho quase que incessante dos trovões, do sentimento reconfortante da água em meu rosto, saudade de todo o sonho. Mas como posso sentir falta de algo que não passou de uma fantasia? Porque algo tão surreal me causa tamanho desconforto?
Sento-me na cama apoiando meus cotovelos sobre meus joelhos e minha face sobre minhas mãos. Volto a me deitar, tentando inutilmente voltar a sonhar o sonho tão sentido, mas minha tentativa é em vão. Passo a observar o teto do quarto. A cada momento o sentimento de saudade aumenta e, depois de certo tempo, percebo que quase duas horas já se passaram. Percebo que realmente não conseguirei voltar à estranha ilha, a qual estranhei e até tive receio de entrar no inicio, mas que agora passo a desejar nunca ter saído dela.
Mais uma hora se passa e, ainda acordado, começo a notar os sons da noite. Mas não são quaisquer sons, mas os sons do silêncio. Fico intrigado por perceber que o silêncio, a própria ausência do som, consegue se comunicar comigo. Algumas pessoas, se abordadas por Ele, o silêncio, talvez não o compreendessem, pois estariam acostumadas a conversar com as palavras, e com essa concepção errônea elas seriam pegas pela armadilha astutamente armada pelo erro, pois o silêncio se comunica por meio dos sentidos, mas não aqueles que conhecemos, mas os que estão acima dos cinco sentidos simples e mundanos que os homens possuem... Os sentidos da mente.
Minha mente começa a se encher de novas percepções, novas maravilhas nunca antes por mim notadas, tais como, o conforto da escuridão, a leve sensação do passar de uma brisa, e tantas outras coisas que eu apenas seria capaz de explicar àqueles que pudessem adentrar em minha mente.
Olho pelas frestas da janela e percebo que o sol já está a acordar de seu sono, pronto para dar a lua o seu devido descanso. Ouço o cantar de um galo e, antes que eu pudesse me despedir, percebo que Ele, o silêncio, já não está mais em minha companhia.
Volto a me sentar na cama, prestes a levantar-me, e percebo que a saudade já não existe mais. Percebo o que o silêncio queria realmente me dizer. Percebo agora que todo o sonho que a pouco me deixava desconfortável com tamanha saudade não passava de um aviso, um aviso de que minha mente estava a chamar-me. Chamar-me para as coisas belas do mundo, da vida, das pequenas coisas que eu estava deixando passar sem dar a devida importância. Também passo a perceber algo que me faz dar uma leve e abafada gargalhada. Percebo que já tive, tenho e terei a oportunidade de falar com os mais variados tipos de pessoas, mas que, com toda a certeza, nenhuma delas pode, e nem poderá dizer-me tantas coisas quanto o meu novo amigo, o silêncio...
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