
- O SONHAR -
Jogado na praia como um naufrago retirado de seu navio por uma tempestade violenta, acordo com os olhos voltados ao céu. Céu este repleto de nuvens tempestuosas, como se estivessem a ponto de libertar uma poderosa tormenta. Lentamente me levanto. Cabeça pesada, mas não mais que minha consciência. O motivo... Ainda não tenho conhecimento, mas assim como uma andorinha que migra para o ninho para proteger os filhotes da imensa tempestade que está por vir, algo misterioso me faz adentrar na ilha desconhecida sem saber se algo de bom ou de ruim me acontecerá, apenas sei que tenho que adentrar.
Adentro na vegetação fechada agora com um sentimento de receio. A cada passo que dou a vegetação toca meu corpo, como se ela mesma não quisesse minha presença na ilha. Após vários metros percorridos me deparo com uma espécie de clareira e percebo que o anoitecer está chegando. Com a chegada da noite tempestuosa me deito na areia tentando descansar meu corpo dolorido. Ao longe, escuto o estrondo dos trovões e meus olhos se maravilham com uma chuva de relâmpagos que cruzam os céus fazendo inúmeros desenhos que somente uma mente cansada e inóspita poderia entender.
Passo algum tempo interpretando os desenhos bruscos, porém de uma enorme beleza, que os relâmpagos ostentam perante meus olhos. “Um belo espetáculo”. Imagino eu, enquanto minúsculas gotas d’água começam a cair sobre mim. Com a chuva já formada começo a sentir certo prazer, o tipo de prazer que apenas somos capazes de sentir com as pequenas coisas que o maior e melhor professor que existe, o mundo, é capaz de nos prover, tais como o doce sorriso de uma criança e o olhar indagador da inocência.
Somente a partir desse momento, desse sentimento, entendo o motivo do meu estar na tão desconhecida ilha. Algo me trouxera aqui, a este lugar esquecido, para que meus olhos pudessem ver o que já viam, mas que há muito tempo deixaram de interpretar, para que meu corpo pudesse sentir o que sempre sentiu, mas que a muito perdera, a capacidade de aproveitar. A simplicidade de um olhar, o prazer dos pequenos gestos, o alivio para uma mente perturbada...
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