sexta-feira, 9 de março de 2012

Pensar, uma extensa reflexão.

Edgar M. B. Neto


Nascer, crescer, morrer. Amar, sofrer, errar, aprender. Perder, encontrar, gostar, odiar, olhar, desviar. Virtudes dentre vertentes, aquilo e aquelas que formam o caráter de uma pessoa. Nasci, por isso estou a crescer e um dia irei padecer perante as leis dos homens. Porém, até que o momento chegue, prepararei meu espírito para a verdadeira vida. Poderei rever meus últimos momentos, e nesse instante, quando as mãos ceifadoras me tocarem, saberei que de tudo eu fiz um pouco. Amei os que me amaram e até mesmo alguns que não tornaram recíproco tal sentimento. Sofri por diversos motivos, bons e maus, porém fui abençoado por ter aprendido com cada um deles; errei e por isso aprendi a consertar tais erros, perdi, mas talvez tenha sido algo bom, pois se eu cheguei a perder significou que aquilo ou aqueles nunca me pertenceram verdadeiramente; encontrei o que não sabia que estava a procurar e tais coisas me renderam boas surpresas; gostei quando deveria não odiar; odiei quando deveria perdoar, e com isso muito aprendi; olhei quando deveria desviar o olhar e desviei quando deveria olhar e encarar de frente.
Tantas coisas fiz, refiz, vi e revi. Tanto observado e a observar, tanto a aprender e tanto a ensinar. Algumas pessoas acreditam que vieram ao mundo com um propósito, uma missão, eu por outro lado penso de maneira diferente. Acredito que estamos no mundo para vivenciar, desfrutar do nosso livre arbítrio, entender e sermos entendidos, fazer do solo árido e rochoso em que caminhamos por toda a nossa vida, um gramado vasto e belo para as existências que virão após a nossa.


Decisão: Uma parábola.


Decisão: Uma parábola

Mais uma vez cá estou eu sentado na beira do penhasco. Com olhos tristes olho para a escuridão do abismo e depois para a imensidão do céu. Sinto o calor da luz do sol em minha pele e ao mesmo tempo um frio no estomago, como se as trevas que me esperam mais embaixo tivessem adentrado e se alojado no amago do meu espirito.

Relembro-me dos momentos que considerei cruciais em minha vida, e somente agora, quando o destino da minha essência está para ser decidido, vejo que alguns desses momentos não passaram de meras ilusões criadas por uma mente cansada e machucada que nobremente tentou dar, mesmo que em mínima parte, algumas alegrias a este que tenta decidir qual caminho tomar pela última vez.

Lembro-me dos meus queridos amigos. O quanto participei – de forma esperada e inesperada – dos momentos deles. Lembro-me das inúmeras vezes que tive a grande felicidade de atuar como um simples coadjuvante na grande peça teatral encenada por cada um deles. Nesse momento, ao olhar para o céu, percebo que lágrimas percorrem meu rosto cansado, e tento me recordar à última vez que tais lágrimas – lágrimas de alegria - fizeram esse percurso em meu rosto.

Enxugo as lágrimas e fico de pé na beira do penhasco. Respiro fundo, fecho meus olhos e a decisão está feita. Não devo tentar alcançar os céus, pois realmente sei que mesmo que eu possuísse asas, elas seriam feitas de sombras e se desintegrariam sob a luz do sol, o que só faria com que a dor da queda fosse mais intensa.

Mais uma vez encho meus pulmões com o ar da coragem e salto para a escuridão profunda, mas algo inesperado acontece, uma mão segura a minha mão e alguém - cujo rosto não posso ver pois a intensa luz do sol me impede e cuja voz parece me lembrar alguém que inutilmente tento lembrar – começa a me trazer de volta.

Mas infelizmente ou felizmente, a decisão já havia sido tomada. Liberto minha mão das do meu salvador tardio e, com um sorriso fúnebre, lhe digo:

- obrigado por tudo, mas quando uma decisão é tomada ela deve ser executada.

Ao Pensar da Madrugada - parte final


- O PENSAR -

Acordo do sonho surreal molhado pelo suor noturno causado pelo clima morno de uma noite não tão aconchegante. De súbito me pego pensando no sonho recém sonhado. Sinto um leve aperto no coração; demoro um pouco para entender, mas acabo me surpreendendo com a significância final... É a saudade. Saudade da praia, do brilho quase que incessante dos trovões, do sentimento reconfortante da água em meu rosto, saudade de todo o sonho. Mas como posso sentir falta de algo que não passou de uma fantasia? Porque algo tão surreal me causa tamanho desconforto?

Sento-me na cama apoiando meus cotovelos sobre meus joelhos e minha face sobre minhas mãos. Volto a me deitar, tentando inutilmente voltar a sonhar o sonho tão sentido, mas minha tentativa é em vão. Passo a observar o teto do quarto. A cada momento o sentimento de saudade aumenta e, depois de certo tempo, percebo que quase duas horas já se passaram. Percebo que realmente não conseguirei voltar à estranha ilha, a qual estranhei e até tive receio de entrar no inicio, mas que agora passo a desejar nunca ter saído dela.

Mais uma hora se passa e, ainda acordado, começo a notar os sons da noite. Mas não são quaisquer sons, mas os sons do silêncio. Fico intrigado por perceber que o silêncio, a própria ausência do som, consegue se comunicar comigo. Algumas pessoas, se abordadas por Ele, o silêncio, talvez não o compreendessem, pois estariam acostumadas a conversar com as palavras, e com essa concepção errônea elas seriam pegas pela armadilha astutamente armada pelo erro, pois o silêncio se comunica por meio dos sentidos, mas não aqueles que conhecemos, mas os que estão acima dos cinco sentidos simples e mundanos que os homens possuem... Os sentidos da mente.

Minha mente começa a se encher de novas percepções, novas maravilhas nunca antes por mim notadas, tais como, o conforto da escuridão, a leve sensação do passar de uma brisa, e tantas outras coisas que eu apenas seria capaz de explicar àqueles que pudessem adentrar em minha mente.

Olho pelas frestas da janela e percebo que o sol já está a acordar de seu sono, pronto para dar a lua o seu devido descanso. Ouço o cantar de um galo e, antes que eu pudesse me despedir, percebo que Ele, o silêncio, já não está mais em minha companhia.

Volto a me sentar na cama, prestes a levantar-me, e percebo que a saudade já não existe mais. Percebo o que o silêncio queria realmente me dizer. Percebo agora que todo o sonho que a pouco me deixava desconfortável com tamanha saudade não passava de um aviso, um aviso de que minha mente estava a chamar-me. Chamar-me para as coisas belas do mundo, da vida, das pequenas coisas que eu estava deixando passar sem dar a devida importância. Também passo a perceber algo que me faz dar uma leve e abafada gargalhada. Percebo que já tive, tenho e terei a oportunidade de falar com os mais variados tipos de pessoas, mas que, com toda a certeza, nenhuma delas pode, e nem poderá dizer-me tantas coisas quanto o meu novo amigo, o silêncio...

Ao Pensar da Madrugada - segunda parte


- O SONHAR -

Jogado na praia como um naufrago retirado de seu navio por uma tempestade violenta, acordo com os olhos voltados ao céu. Céu este repleto de nuvens tempestuosas, como se estivessem a ponto de libertar uma poderosa tormenta. Lentamente me levanto. Cabeça pesada, mas não mais que minha consciência. O motivo... Ainda não tenho conhecimento, mas assim como uma andorinha que migra para o ninho para proteger os filhotes da imensa tempestade que está por vir, algo misterioso me faz adentrar na ilha desconhecida sem saber se algo de bom ou de ruim me acontecerá, apenas sei que tenho que adentrar.

Adentro na vegetação fechada agora com um sentimento de receio. A cada passo que dou a vegetação toca meu corpo, como se ela mesma não quisesse minha presença na ilha. Após vários metros percorridos me deparo com uma espécie de clareira e percebo que o anoitecer está chegando. Com a chegada da noite tempestuosa me deito na areia tentando descansar meu corpo dolorido. Ao longe, escuto o estrondo dos trovões e meus olhos se maravilham com uma chuva de relâmpagos que cruzam os céus fazendo inúmeros desenhos que somente uma mente cansada e inóspita poderia entender.

Passo algum tempo interpretando os desenhos bruscos, porém de uma enorme beleza, que os relâmpagos ostentam perante meus olhos. “Um belo espetáculo”. Imagino eu, enquanto minúsculas gotas d’água começam a cair sobre mim. Com a chuva já formada começo a sentir certo prazer, o tipo de prazer que apenas somos capazes de sentir com as pequenas coisas que o maior e melhor professor que existe, o mundo, é capaz de nos prover, tais como o doce sorriso de uma criança e o olhar indagador da inocência.

Somente a partir desse momento, desse sentimento, entendo o motivo do meu estar na tão desconhecida ilha. Algo me trouxera aqui, a este lugar esquecido, para que meus olhos pudessem ver o que já viam, mas que há muito tempo deixaram de interpretar, para que meu corpo pudesse sentir o que sempre sentiu, mas que a muito perdera, a capacidade de aproveitar. A simplicidade de um olhar, o prazer dos pequenos gestos, o alivio para uma mente perturbada...

Ao Pensar da Madrugada


- Prelúdio -

Edgar M. B. Neto

Acordado nessa longa e duradoura madrugada me pego pensando sobre várias coisas. Coisas essas que tem a força penetrante da insistência, a força que derruba quaisquer barreiras que a mente tente inutilmente levantar. Tais coisas – algumas mais, outras menos – me colocam para pensar. Pensar, as vezes, sobre épocas passadas, hoje em dia a muito remotas, onde tudo era de uma simplicidade singela, onde os devaneios não eram uma “preocupação”, mas sim sonhos inocentes de uma mente virgem aos olhos do mundo.

As vezes me pego e me surpreendo pensando em pessoas, algumas - em grande maioria – que já não ocupavam espaço em minha memória ou que já se encontravam profundamente ocultas entre as brumas do pensar. Pessoas essas que já me proporcionaram inúmeras alegrias e por ventura algumas tristezas, que um dia pensei que fossem durar para sempre em uma corrente de amizade uma vez forjada na chama da inocência, mas que hoje em dia me parecem estar enterradas a sete palmos em um “Cemitério de Memórias” em algum lugar nos campos confusos e por algumas vezes inabitados de minha mente.

As vezes determinados momentos vem à tona. Momentos que me jogam em um redemoinho de memórias situado em um mar de pensamentos que muitas vezes me fazem acordar em uma praia do sonhar.